Todo ano, quando entra a primavera em Belo Horizonte, começa a mesma cena no consultório. Crianças chegam com coriza que não passa, espirros em salva de manhã cedo, olhos vermelhos, coceira no nariz, sono ruim e cansaço. Muitas famílias estão no terceiro ou quarto ciclo de antibiótico do ano, convencidas de que o filho vive resfriado. Na maioria dessas histórias, o que existe de fato não é infecção repetida, é rinite alérgica sazonal ou persistente descontrolada.
Rinite alérgica é a doença crônica das vias aéreas mais comum na infância e afeta a qualidade de vida da criança e da família de um jeito que costuma ser subestimado. Este guia foi escrito para explicar o que ela é, como reconhecer, quando desconfiar de que não é resfriado, o que funciona no tratamento e o que ficou ultrapassado, tudo baseado no V Consenso Brasileiro sobre Rinites (SBP, ASBAI e ABORL-CCF, 2024) e na diretriz internacional ARIA/EAACI 2024/2025.
O que é rinite alérgica
Rinite alérgica é uma inflamação crônica da mucosa do nariz causada por uma reação do sistema imunológico a substâncias inaladas do ambiente, chamadas de alérgenos. Os principais no Brasil são os ácaros da poeira doméstica, mofo, pelos de animais e, em algumas regiões e épocas, o pólen. O sistema imune de crianças com predisposição alérgica reconhece essas partículas como uma ameaça e libera substâncias inflamatórias que provocam coriza, obstrução nasal, espirros e coceira.
Ela é classificada, seguindo as recomendações da diretriz ARIA, em intermitente, quando os sintomas aparecem em até 4 dias por semana ou por no máximo 4 semanas consecutivas, e persistente, quando aparecem em mais de 4 dias por semana e por mais de 4 semanas seguidas. A intensidade também é classificada como leve ou moderada a grave, dependendo do impacto no sono, no rendimento escolar, nas atividades do dia a dia e no bem-estar da criança.
Quão comum é na infância
Rinite alérgica é frequente no Brasil e o país está entre os de maior prevalência do mundo, segundo o estudo internacional ISAAC (International Study of Asthma and Allergies in Childhood). Em média, cerca de 12% a 15% das crianças brasileiras entre 6 e 13 anos apresentam sintomas compatíveis, com variações regionais importantes. Em cidades do Norte e do Nordeste, a prevalência ultrapassa 40%.
Na prática, isso quer dizer que qualquer sala de aula de escola em BH tem alunos com rinite alérgica, muitas vezes ainda sem diagnóstico ou tratando com o remédio errado.
Sintomas clássicos em crianças
Os sintomas típicos de rinite alérgica na criança são:
- Coriza clara e aquosa persistente ou recorrente.
- Obstrução nasal, com criança respirando pela boca, principalmente à noite.
- Espirros em salva, várias vezes seguidas, sobretudo pela manhã.
- Coceira no nariz, no céu da boca, nos ouvidos e nos olhos.
- Ausência de febre na maior parte do tempo.
Existem também sinais físicos que reconhecemos no exame e que ajudam muito no diagnóstico. Eles são chamados de estigmas atópicos e reflexos característicos:
- Saudação alérgica: o gesto de esfregar a ponta do nariz com a mão de baixo para cima, quase involuntário, que a criança faz muitas vezes por dia por causa da coceira.
- Prega nasal transversal: uma linha na ponta do nariz, formada pelo hábito da saudação alérgica.
- Olheiras alérgicas: aquela coloração arroxeada abaixo dos olhos.
- Linhas de Dennie-Morgan: pequenas dobras extras na pálpebra inferior.
- Boca sempre entreaberta e ronco noturno, por respirar pela boca em vez do nariz.
Nem toda criança apresenta todos os sinais, mas a combinação de coriza clara persistente, espirros em salva e coceira é bastante característica.
É rinite alérgica ou é resfriado?
Essa é a dúvida mais comum na consulta. As duas coisas podem parecer iguais nos primeiros dias, mas evoluem de forma diferente.
Resfriado é uma infecção viral. Dura em média de 7 a 10 dias, costuma ter febre baixa nos primeiros dias, mal-estar, dor de garganta ou tosse leve, e a secreção nasal muda de coloração ao longo dos dias, ficando mais espessa e amarelada antes de ceder. Depois passa. Não volta em seguida sem motivo.
Rinite alérgica não é uma infecção. É uma reação do organismo. Costuma cursar sem febre, com secreção nasal clara e aquosa, e volta sempre nas mesmas situações: em contato com poeira, em dias secos, ao acordar, ao ficar tempo em ambiente com bicho de pelúcia ou tapete, ou em determinadas épocas do ano. Se o pediatra ouve a família dizer "está sempre gripado", "não tem um mês bom", "de manhã é a pior hora", quase sempre o quadro é alérgico e não infeccioso.
Também é comum a combinação dos dois. Uma criança com rinite alérgica pega resfriado como qualquer outra e, quando isso acontece, os sintomas ficam ainda mais arrastados. O acompanhamento clínico ajuda a separar o que é infecção nova e o que é rinite mal controlada.
Genética e marcha atópica
Rinite alérgica tem forte componente genético. Quando um dos pais é alérgico, o risco de a criança desenvolver algum tipo de alergia sobe para cerca de 50%. Quando os dois pais são, o risco chega a até 80%. Isso não é uma sentença, mas é um alerta importante para investir na prevenção ambiental desde cedo, principalmente em bebês.
Rinite alérgica também é parte de um conjunto de doenças chamado de marcha atópica. Nesse padrão, uma criança geneticamente predisposta pode apresentar dermatite atópica ainda nos primeiros meses de vida, evoluir com alergia alimentar em alguns casos, desenvolver rinite alérgica entre 2 e 6 anos, e eventualmente asma na fase escolar. Nem toda criança segue todas as etapas, mas a associação é forte: cerca de 75% das pessoas com asma têm rinite alérgica associada. Tratar bem a rinite reduz o impacto da asma e vice-versa.
Rinite alérgica em bebês
Embora o diagnóstico formal seja mais comum a partir dos 2 ou 3 anos, sintomas alérgicos podem aparecer bem antes, sobretudo em bebês com histórico familiar importante. Nesse grupo, os sinais que chamam atenção são coriza clara arrastada, congestão nasal frequente sem quadros infecciosos claros, dermatite atópica associada, dificuldade para mamar por respiração ruim e sono muito interrompido.
Em bebês, tomamos cuidado em não rotular todo quadro nasal como rinite alérgica logo de cara, porque nessa idade infecções virais respiratórias são muito frequentes. Mas quando o padrão é claramente crônico ou recorrente, e não infeccioso, o pediatra pode e deve começar as medidas de controle. Nessa faixa etária, a prioridade é lavagem nasal com soro fisiológico em rotina e controle rigoroso do ambiente, especialmente do quarto onde o bebê dorme.
Como o pediatra faz o diagnóstico
O diagnóstico de rinite alérgica é essencialmente clínico. Uma boa história (quando os sintomas começam, com o que pioram, se tem histórico familiar, se existem outros sinais atópicos) e um exame físico cuidadoso do nariz, ouvido, orofaringe e pele, geralmente já bastam para o pediatra fazer o diagnóstico e iniciar o tratamento.
Exames complementares são úteis em casos selecionados, quando o pediatra ou o alergista precisa identificar exatamente o alérgeno responsável, principalmente para planejar imunoterapia. Os principais são:
- Testes cutâneos de leitura imediata (prick test): considerados o padrão-ouro para identificar sensibilização a alérgenos inaláveis.
- IgE sérica específica: exame de sangue usado como alternativa quando o teste cutâneo não é possível (uso de anti-histamínicos, doença de pele extensa, entre outros).
Radiografia, tomografia e exames de sinusite não são necessários no diagnóstico da rinite alérgica típica. São reservados a situações específicas, como suspeita de complicações ou dúvida diagnóstica.
Tratamento: o que realmente funciona
O tratamento moderno da rinite alérgica se apoia em três pilares que caminham juntos: controle ambiental, lavagem nasal com soro fisiológico e medicações escolhidas de acordo com a gravidade. Em casos selecionados, também entra a imunoterapia alérgeno-específica.
Pilar 1: controle ambiental
Nenhum medicamento sozinho controla bem uma rinite alérgica se a criança continua dormindo dentro do gatilho todas as noites. As medidas com melhor evidência científica são:
- Capas antiácaros impermeáveis em colchão, travesseiro e edredom. Essa é a medida ambiental com melhor evidência disponível, com estudos mostrando redução importante da carga de alérgeno na cama e melhora dos sintomas em pacientes sensibilizados a ácaros.
- Lavagem semanal da roupa de cama com água quente (acima de 55 graus), que mata os ácaros.
- Retirar tapetes, cortinas pesadas e bichos de pelúcia do quarto de dormir. Quando o bicho de pelúcia é inegociável, uma opção é lavá-lo semanalmente ou colocá-lo no freezer por 24 horas antes da lavagem.
- Ambiente arejado, com sol e ventilação. Ácaros gostam de escuro, quente e úmido. Abrir janelas, deixar entrar sol e deixar o quarto respirar reduz muito a proliferação.
- Controle da umidade em casas com mofo evidente. Consertar infiltrações, tratar paredes e usar desumidificador em ambientes muito úmidos ajuda.
- Purificadores de ar com filtro HEPA no quarto podem ajudar, com estudos mostrando redução de sintomas em pacientes sensibilizados quando usados por várias horas por dia.
- Casa livre de fumaça de cigarro, dentro dos ambientes e no carro. Tabagismo passivo é um dos maiores irritantes das vias aéreas na infância.
- Cuidado com animais no quarto: mesmo cães e gatos sem raça alergênica soltam alérgenos. Se a criança é sensibilizada, o mínimo é manter o animal fora do quarto de dormir.
Pilar 2: lavagem nasal com soro fisiológico
Lavagem nasal com soro fisiológico é uma das intervenções com maior custo-benefício de toda a pediatria. Custa pouco, não tem efeito colateral relevante, alivia sintomas e reduz a necessidade de outros medicamentos. É considerada primeira linha para rinite alérgica em qualquer idade, com evidência robusta em crianças.
Em bebês pequenos, usamos soro fisiológico em gotas ou seringa, com aspiração delicada em seguida. Em crianças maiores, é possível usar frascos com dispositivos próprios para lavagem, com volume maior. O importante é ser rotina, não resgate: nariz limpo várias vezes por dia funciona muito melhor do que lavagem esporádica quando entope.
Pilar 3: medicações
A escolha da medicação depende da gravidade e do padrão da rinite. As diretrizes ARIA/EAACI 2024/2025 organizam as opções em uma hierarquia clara:
- Corticoide intranasal (por exemplo, mometasona ou fluticasona) é a medicação isolada mais eficaz para rinite alérgica moderada a persistente. Os corticoides nasais modernos têm biodisponibilidade sistêmica baixa e perfil de segurança bem estudado, incluindo em crianças a partir de 2 anos, quando prescritos e supervisionados por pediatra. O efeito máximo aparece com uso contínuo por 1 a 2 semanas, não sob demanda.
- Anti-histamínicos orais de segunda geração (loratadina, desloratadina, cetirizina, levocetirizina, fexofenadina, ebastina, bilastina) são úteis para espirros, coceira e coriza clara. Não causam sedação importante e podem ser mantidos por períodos prolongados quando indicado. São menos eficazes que o corticoide nasal para congestão.
- Combinação de corticoide intranasal com anti-histamínico intranasal em spray fixo é uma opção em casos moderados a graves, com evidência de melhora superior aos anti-histamínicos isolados, segundo a atualização ARIA 2024/2025.
- Antileucotrienos (montelucaste) têm papel discreto no tratamento da rinite isolada, ficando abaixo dos corticoides nasais e anti-histamínicos na hierarquia. Podem ter valor em quadros com asma associada, sempre com discussão dos riscos neuropsiquiátricos descritos em bula.
- Descongestionantes nasais tópicos (nafazolina e similares) não são recomendados em crianças. Podem causar efeito rebote, dependência e efeitos adversos importantes.
Uma parte fundamental do tratamento é ensinar como usar o spray nasal. Aplicação com a cabeça reta, spray direcionado para fora (para longe do septo nasal) e não fungar com força após a aplicação. Uma técnica correta faz mais diferença do que trocar de medicamento.
Imunoterapia alérgeno-específica
Também chamada de vacina de alergia, a imunoterapia é o único tratamento que age na causa da doença, e não apenas nos sintomas. Consiste em administrar doses crescentes do alérgeno ao qual a criança é sensibilizada, por via subcutânea ou sublingual, ao longo de 3 a 5 anos, para modular a resposta imune.
É indicada em crianças com rinite alérgica moderada a grave, alérgeno bem identificado e resposta insuficiente ao tratamento farmacológico e ambiental, geralmente a partir dos 5 anos, e conduzida por médico especialista em alergia e imunologia. O pediatra encaminha e acompanha em conjunto.
Sinais de que a rinite não está controlada
A meta do tratamento é a criança viver bem: dormir a noite inteira, respirar pelo nariz, brincar sem cansaço e ir à escola sem faltar. Se algo disso não está acontecendo, mesmo com medicação, é sinal de que precisa reavaliar. Fique atento a:
- Ronco alto ou pausas respiratórias durante o sono.
- Cansaço, irritabilidade e queda no rendimento escolar.
- Otites recorrentes ou perda auditiva.
- Sinusites de repetição.
- Tosse crônica ou chiado no peito, que podem indicar asma associada.
- Necessidade frequente de descongestionantes ou uso contínuo de spray nasal sem orientação médica.
Nesses casos, o ideal é retornar ao pediatra para revisar diagnóstico, adesão, técnica de aplicação e escalar o tratamento quando necessário.
Quando o acompanhamento pediátrico faz diferença
Rinite alérgica é uma doença crônica e o cuidado dela se parece muito com o cuidado de outras condições crônicas na infância. Não é caso para tratar por telefone, e não é caso para trocar de medicamento a cada crise. É caso para acompanhar de perto, adaptar o tratamento conforme a criança cresce e a estação do ano muda, orientar sobre ambiente, checar técnica de aplicação em cada consulta e, principalmente, evitar antibióticos que não são necessários.
Como pediatra particular em Belo Horizonte, procuro construir esse acompanhamento próximo com as famílias. Consultas com tempo para explicar, retorno para revisar como está indo, WhatsApp disponível para dúvidas entre consultas e encaminhamento ao alergista quando o quadro justifica imunoterapia. A criança que era "sempre gripada" costuma virar uma criança que passa temporadas inteiras sem sintomas, com o tratamento certo, e isso muda a vida da família.
Uma palavra final para os pais
Se seu filho está sempre com coriza, espirros pela manhã, olheiras, ronco, sono ruim e a sensação de que nunca fica sem "resfriado", vale procurar avaliação pediátrica dirigida a rinite alérgica. Na maior parte das vezes, com controle ambiental bem feito, lavagem nasal em rotina e a medicação certa no tempo certo, o quadro melhora bastante e a qualidade de vida da criança volta ao que deveria ser.
Se você mora em Belo Horizonte e quer um pediatra particular para acompanhar de perto o quadro alérgico do seu filho, ajustar o tratamento com base em evidências e articular com o alergista quando necessário, estarei à disposição.
Se seu filho vive com coriza, espirros e nariz entupido, o próximo passo é uma consulta pediátrica particular em BH. O serviço de alergias e infecções reune a avaliação clínica, o controle ambiental e o tratamento individualizado.

